O corredor escuro parecia mais longo do que o normal. Caminhava por ele, dando passos um pouco trêmulos, a cabeça girava. Andava até o final do corredor e voltava, como se esperasse um filho nascer numa madrugada gelada. O nariz escorria, demonstrando a existência do frio ou talvez uma vontade presa de chorar.
Na mão, uma xícara de chá, bebia esporadicamente. Estava esperando que o líquido quente entrasse pelo estômago, limpando a sujeira acumulada. O espelho revelava um rosto diferente, passava pela frente do espelho e não olhava, era olhado. Dentro do espelho, brilhava no meio da escuridão.
Em nenhum momento pensara em sair daquele corredor escuro. Se tivesse pensado, teria visto a impossibilidade de passar por dentro do espelho e olhar tudo ao revés, como se tivesse dado uma volta brusca e desnecessária.
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Se tivesse corrido para o banheiro preservaria o chão assoalhado que havia encerado com tanto trabalho durante os poucos momentos em que a luz solar entrava naquele pedaço do corredor escuro.
Naquele momento, tomava o chá que se derramou pelo piso. Talvez tenha derrubado a caneca que não quebrou apenas correu como se estivesse viva debaixo de uma poltrona empoeirada que mantinha num rincão inabitado daquela sala iluminada pela noite que se obscurecia com aquelas convulsões no estômago no caminho desesperado pelo interior daquele corredor.
Se tivesse acendido as luzes, perceberia o chá derramado pelo piso, mas não veria a caneca, a não ser que seguisse o caminhar amedrontado de um gato. Com certeza um gato que examinava. Fora acordado pelo barulho da xícara que correra pelo chão, debaixo da poltrona esquecida. Se tivesse acendido as luzes, com a xícara ainda na mão, veria que o chá misturava-se com o sangue que saía num escorrer fino e contínuo de dentro do espelho.
E passaria na frente do espelho, veria uma imagem de nada, choraria pela mistura de sangue e chá. Arrotando as sujeiras acumuladas poderia apagar a imagem do gato cheirando uma xícara vazia que rolava pelo meio do corredor em direção a uma poltrona macia e confortável comprada para ser colocada na sala escura.
Acenda a luz no banheiro para ver uma banheira povoada de vômitos das coisas ruins que apenas foram limpas de todos os maus pensamentos e más vontades.
Quando deitar na cama, junto com um gato amedrontado e uma xícara meio vazia, uma mancha de luz no teto mostrará com sarcasmo que, saiba ou não, o espelho ainda refletirá o mundo ao revés.
E correria para o banheiro encontrando uma banheira onde a água poderá limpar o vômito que escorre pelas privadas que estão espalhadas estrategicamente pelo corredor escuro. Quando olhasse para baixo, veria o sangue misturado com chá entrando nas feridas dos pés incapazes de discernir o espaço vazio das privadas, pintadas de negro para combinar com o resto do corredor.
No fundo do corredor, poderia ver a sinalização aeroportuária que se repete infinitamente no espelho, existam ou não aviões. Teria visto também os vômitos voltando ao estômago, passando pela boca e pelas privadas, numa tentativa de voltar ao abrigo e ao aconchego interno. O teto marcado pelos arrotos que, como grandes brados de guerra, mostrariam à humanidade o ímpeto de raiva e violência que havia tomado conta deste estômago.
Estaria pior se a poltrona de couro empoeirada, onde dorme um gato amedrontado e com frio, não tivesse se tornado um lugar mais confortável, sem o qual passaria a noite cheia de luzes naquele corredor iluminado pelas dezenas de portas semifechadas, onde privadas entupidas contrastavam com um chão molhado pela cera que iria passar, levando a deslizamentos inevitáveis – e terminasse num espelho coberto com o pano negro que impedia que o mundo virasse para trás. Nessa poltrona, com a xícara cheia de chá amargo, os dedos do pé machucados, com um gato entre as pernas, amedrontado pelo piso que havia se transformado em um oceano de vômito, sangue e chá, iluminado somente pelos reflexos que iam e vinham do espelho luminoso, esperaria a noite passar.
O dia seria ainda pior.





