O Homem Que Girava

– Então, por que você fica girando?

– Ah, vai tomar no cu, pergunta mais besta. Se eu soubesse porque preciso ficar girando, poderia controlar isso e levar uma porra de uma vida normal. Não sei, só sei que preciso girar.

– Tudo bem. Há quanto tempo você fica girando?

– Há tanto tempo que não me lembro. Não consegue entender que quando eu começo a girar pelas ruas, perco a noção do tempo e de tudo mais? Eu só giro.

– E você sempre gira na mesma direção?

– Não, sempre que eu giro, eu preciso desgirar, senão fica tudo embaralhado. Se eu só girasse para um lado, ao final de um tempo eu seria como esses elásticos. Ficaria cada vez mais difícil girar, e quando chegasse ao limite, à saturação, eu seria lançado aos ares pela força do desgiro.

– Você nunca sentiu vontade de ser lançado pelos ares?

– Pra dizer a verdade, sim. Mas tenho medo. E se eu me transformasse num daqueles brinquedos de criança pobre? Aqueles que têm hélices e que você joga para os ares. E depois vai pegar. Brincadeira mais besta. Prefiro ser um elástico.

– Você é um elástico?

– Pergunta mais estúpida. É claro que eu não sou um elástico. Já viu elástico falando, sentado nesta cadeira? Você é daqueles que conversam com objetos? Se eu fosse um elástico (já imaginou?), você estaria conversando com um objeto inanimado. Acho que teria uma grande chance de você estar louco, não acha?

– E você, está louco?

– Mas, caralho, você só faz pergunta cretina, mesmo? Eu ando pelas ruas girando e desgirando, achando que sou um elástico e que posso sair voando como brinquedo de criança pobre. Será que eu sou normal?

– Eu não sei, diga-me você!

– Se você não sabe essas coisas tão óbvias, como pensa que pode entender o que vai pela minha mente?

– E o que vai pela sua mente?

– A necessidade de girar e desgirar enquanto ando pelas ruas.

– Só isso?

– Não, sinto fome também.

– E por que você gira?

– Ah, sim. Dentro de todo homem existe uma necessidade inerente de seguir a rotação da Terra. Gaia e eu temos uma conexão intrínseca que é demonstrada através da percepção intestina dos nossos movimentos… ah, vai pra puta que pariu. Como você quer que eu explique essa loucura? Eu giro, não sei por quê! Só sei como.

– Como?

– Ao dar o passo com o pé direito, colocando-o à frente do esquerdo, eu giro meu tronco para meu lado esquerdo, faço um movimento com os pés que lembra um andar para trás e, quando completo uma volta total, sigo em frente. Para desgirar, faço o contrário. Aliás, você girou sobre si mesmo alguma vez?

– Claro que sim!

– Então, por que me pergunta essas coisas?

– E quando você sente essa vontade de girar?

– Ah, o tempo todo.

– Mas já estamos aqui há uns quinze minutos e você não girou nenhuma vez.

– Nossa, é mesmo. E quando é que eu comecei a sentir essa compulsão para girar?

– Para dizer a verdade, eu não descobri isso.

– Por que eu giro?

– Não sei, só gira. Parece algo contagioso, uma doença.

– Interessante, uma doença de girar?

– Pode ser uma síndrome giratória.

– Girativa?

– Esquisitices girazóides.

– Então, eu giro e desgiro.

– Sim, porque senão você ficaria esticado como um elástico e poderia sair voando como um brinquedo.

– E seria agarrado por uma criança ao cair no chão.

– O problema seria descobrir onde cairia.

– E se me machucaria.

– Um girador maluco.

– Seria eu um girador maluco?

– Muito provável.

– Eu sou um caso muito interessante. Já viu algo parecido?

– Sim, mas parado. Girando, é a primeira vez.

– O primeiro homem girando… me sinto importante.

– A importância está no homem ou no giro?

– Não, a importância está no desgiro. O desgiro é a chave de tudo.

– Existirá o desgiro sem o giro?

– Não, pensando bem, não existe. O desgiro sem o giro seria um giro para o lado errado.

– Existem lados certos e errados?

– Sim, o giro sempre precisa ser para o lado de cá, enquanto o desgiro para o lado contrário.

– Lado contrário? Contrário a quem?

– O lado é contra o giro que, sob alta tensão, transformar-se-ia em movimento helicoidal, ao invés de movimento giral.

– Devemos, então, perceber que o movimento helicoidal é ruim e o movimento giral é correto?

– Correto, o correto é o movimento giral. Se não fosse assim, todos os meus movimentos seriam maléficos. Eu seria um ser maligno.

– Você é um ser maligno?

– De jeito nenhum. Você me acha maldoso?

– Eu te vejo como um ser muito bondoso.

– Então, não faz sentido?

– Faz sentido.

– Então…

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