Acaricia meu sonho

Resenha publicada na revista +Soma nº 3 (dezembro-2007)

Eu quero essa mulher assim mesmo

Por Arthur Dantas

O recém-lançado Acaricia Meu Sonho (Amauta Editorial) de Barbão, conta a história de uma estrangeira que, depois de décadas, resolve voltar a Buenos Aires e fazer um acerto de contas mui particular com um grande amor de juventude: um candidato a escritor que se forma em tempo recorde como tradutor de francês e abandona a jovem em um quarto de pensão masculina. Eis o mote para o que se pode tornar rapidamente um clássico. Não é exagero: se tomarmos a acepção de clássico estabelecida por Ítalo Calvino em seu Por que Ler os Clássicos – a de obra que dá a sensação de inesgotabilidade, revelando sucessivas camadas a cada leitura, sempre retirando algo mais de lá – o livro de Barbão tem todos os predicados para tanto.

O escritor/personagem, na realidade, são três: o personagem propriamente dito, o escritor em outro país a escrever sobre um escritor e o leitor que, ao ler, projeta-se no livro e reescreve a história. A mulher narradora da história, é ela mesma (no mínimo) três, a mulher madura em busca de seu amor de juventude e a mulher que o leitor projeta, já que essa mulher-enigma nunca se mostra por inteiro. Há ainda a mulher que o escritor/personagem criou. Nada é o que parece ser; sonho, delírio e loucura se mesclam. Quem é essa mulher, afinal? Ela existe? Seria uma metáfora para a inspiração ou a loucura – ambos substantivos femininos? A forma como o autor delimita todas essas possível interpretações no romance é um dos pontos altos do livro.

E, afinal: quem é o escritor/personagem do livro? Barbão, o autor, diz que o personagem realmente existiu (é verdade, eu o descobri na última parte do livro!). Isso interessa no final? Ou melhor, isso responde à questão de quem seria o escritor (O personagem? O autor? O leitor?) neste quebra-cabeça literário?

Ainda que exista todos estes níveis de leituras, o livro é fluente e saboroso pela história em si. Arriscar-se nesse labirinto é uma tarefa recompensatória. Romance intimista, suspense, drama… O leitor é colocado em suspenso, jogado em contato direto com as emoções da mulher/narradora. O que, por si só, é um mérito tremendo: a mulher da história, quase a projeção de um sonho (ou seriam vários sonhos?) é palpável, real, cheia de existência física – mesmo que na história ela ameace se dissipar no ar a qualquer instante.

Os personagens, prenhes de um certo espírito trágico e prosaico – típico dos tangos que nomeiam os capítulos – são dispostos em uma Buenos Aires amorosa e cheia de encantos e segredos a se desvendar. A narradora diz que as sacadas dos pequenos – e volumosos – prédios do centro da cidade, estão o tempo todo a observá-la. É quase um chamado da cidade ao “Decifra-me ou devoro-te”.

Os primeiros capítulos soam estranho ao tomar a obra como um todo. Há, inclusive, a repetição exaustiva de parágrafos encerrados com frases de efeito, o que passa a ser melhor dosado no restante do livro. A cadência dos capítulos também ganha maior importância e se impõe no decorrer de suas quase cem páginas. O certo é que, ao final, pouco se lembrarão desse mal-estar inicial. Outro dado interessante é que se trata de uma história derivativa, já que trabalha no campo de possibilidades aberto por um conto do autor portenho homenageado no livro, cujo nome é o mesmo da protagonista de Acaricia Meu Sonho, Circe.

Por fim, Barbão cria uma ode a Buenos Aires digna de um espírito apaixonado – paixão pela cidade estrangeira, pela escrita, pelo escritor/personagem do livro, pela narradora… O autor incorporou visceralmente aspectos constituintes da alma portenha e realizou certamente, um grande mistério literário para a literatura brasileira do início do século XXI.

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